quinta-feira, 31 de março de 2011

Família Rezende e seus 70 anos de Anápolis


Panorâmica da Rua Manoel D' Abadia na década de 1940
Nesse mês de março que se finda a família Rezende completa o seu septuagésimo aniversário de chegada a Anápolis, a antiga e pacata Vila de Sant’ Ana das Antas. Permitam-me primeiro fazer um resumo do contexto econômico de Anápolis. Com a inauguração da Estrada de Ferro Goyaz em 1935, Anápolis dá um salto em sua história econômica e social. Tanto que recebeu o título de capital econômica de Goiás, permanecendo até os dias de hoje. Também sendo chamada de Manchester Goiana e de Ribeirão Preto de Goiás devido a sua efervescência econômica.  Só para nos inteirar melhor, foi à primeira cidade do Estado a construir edifícios e com elevadores, isso em 1937. A primeira a dispor de telefonia, a partir de 1938. Outro fato importante, foi ter um banco com capital inteiramente anapolino, sendo o maior do estado, cognominado Goiaz Bank. Também abrigava os maiores armazéns e atacadistas do estado, sobretudo com a importante participação e domínio comercial da colônia sírio-libanesa. Com a construção de Goiânia e, posteriormente, a de Brasília, a cidade foi base de fornecimento de matéria-prima e mercadorias para as novas capitais. 
Edifício do Goiaz Bank em 1946

Hospital Evangélico Goiano, Edifício Dona Dayse em 1942, porém construído em 1937.

            O certo é que Anápolis alcançou uma posição econômica que permanece até os dias atuais, sendo muito disputada por outras cidades goianas. Só que no ritmo que Anápolis vai, será difícil tais cidades alcançarem. Primeiro pela estrutura industrial e comercial que a cidade possui, capitaneadas pelo DAIA – Distrito Agro-Industrial de Anápolis, abrigando o Porto Seco Centro Oeste, o maior porto do interior do Brasil. “Para se ter uma idéia de sua importância econômica, em 2010 o Porto Seco movimentou US$ 2.098 bilhões, praticamente a metade de tudo o que Goiás importou no ano passado e 80% a mais em relação ao que foi registrado em 2009, que foi de US$ 1.100 bilhão¹”

           Pode-se destacar ainda a Base Aérea Militar da Aeronáutica instalada no início da década de 1970, e que é responsável pela defesa da capital federal, Brasília e de todo o Centro-Oeste. Também a ferrovia Norte-Sul tem o quilômetro zero na cidade, cujas obras estão em andamento e proporcionará outro salto econômico.  É um polo educacional, sendo sede da Universidade Estadual de Goiás e de outras faculdades. Outro fator que hoje impulsiona a cidade e que nós não poderíamos deixar de mencionar é a excelente administração do prefeito Antônio Gomide. Ele conseguiu retirar a cidade de um marasmo administrativo e político, que reinava há anos. Em dois anos de governo a cidade tem uma cara totalmente diferente, é só irem às ruas e confirmar com o povo do que estamos falando. 

Belarmino e seu filho José (Seu Zeca) no fim da década de 1920
            Voltando para o assunto a que o título propõe, é nesse contexto da década de 1940 que a família Rezende muda-se de Araguari (mas originária de Uberlândia) para Anápolis. Numa época de “vacas gordas”, com a ideia de que se teria uma vida melhor e alcançaria êxitos financeiros. Já morava em Anápolis desde a década de 1930, o casal Belarmino Ferreira de Rezende e Rita Maria de Jesus (Nenê) juntamente com seus filhos, José Virgínio de Rezende, Acácio Rezende e Manoel Ferreira de Rezende. Todos oriundos de Uberlândia, outrora São Pedro de Uberabinha.  Em Anápolis residiam na Fazenda Mata Amarela ocupada posteriormente nos anos cinqüenta pela Vila Fabril. José Virgínio de Rezende (mais conhecido como Seu Zeca) foi passear em Araguari na casa dos tios Onofre Rodrigues de Rezende (*1884 +1966) e Virgilina Maria de Rezende (*1887 +1951), moradores da Fazenda Fundão, em frente a Estação Ferroviária Stevenson. Lá fez a propaganda de Anápolis, afirmou que era um lugar muito bom e promissor, que dava chance de bons negócios. Onofre ficou interessado e sentiu-se atraído pela conversa.

            Enquanto isso, José permanece na casa dos tios por mais alguns dias, e Onofre já havia decidido que iria com o sobrinho para conhecer a cidade. Embarcam numa "Maria Fumaça" rumo a cidade goiana e chegando ao seu destino, o velho tio Onofre percorre o município e encanta-se pela Terra de Sant’ Ana. Ficou logo na vontade de comprar uma fazenda na região e mudar-se, as terras aqui eram mais baratas do que as de Minas. Retorna então para casa, e expõe a família o que encontrou e o desejo de vender a propriedade e transferir-se para Anápolis. Houve certa relutância, mas a família acabou cedendo com a esperança de adquirirem uma grande propriedade por um preço baixo. E é assim que a família desfecha sua história na Stevenson, vendendo o sítio de 16 alqueires a beira da estação. 

José Virgínio de Rezende (Seu Zeca)
            Voltam a Anápolis a procura de fazendas para comprar, enfrentam algumas dificuldades. Chegam a fazer negócio numa, situada na região do DAIA, mas o proprietário, o major Olímpio Barbosa de Melo acabou falecendo e o negócio desfeito. Mesmo assim, sem a compra de terras a família decide-se mudar. Além de Onofre e a esposa Virgilina, vieram juntos os filhos José Rodrigues de Rezende (*1914 +1967), Olímpio Rodrigues de Rezende (*1918 +1979), Manoel Rodrigues de Rezende (*1921 +2013), Adélia Maria de Rezende (*1924 +1981) e a filha adotiva Maria “Nega” (* 1938 +2007). Os dois primeiros, José e Olímpio, já eram casados e trouxeram suas esposas, respectivamente: Izabel Rodrigues da Cunha (*1917 +1981) e Ludovina Maria dos Santos (*1922). Onofre e Virgilina só não ficaram completamente contentes pelo fato do filho mais velho, Joaquim Rodrigues de Rezende (*1911 +1976) casado com sua prima Maria Ferreira de Rezende (*1917 +2008) não terem vindo, pois estes continuaram morando na Fazenda Sobradinho em Uberlândia.  É só em janeiro de 1944 que Joaquim e Maria mudam-se para Anápolis, já tendo duas filhas: Valdete Maria de Rezende (*1941 +2008) e Benedita de Fátima Rezende (*1943 +2012). Em solo anapolino tiveram mais três filhos: João Martins de Rezende (*1945 +2014), Diva Rezende Gomes (*1947) e Terezinha Rezende (*1948 +2015).

Rodovia Anápolis-Colônia Agrícola Km 4 em 1949. No local da Av. Fernando Costa na Vila Jaiara
            Arrendam, primeiramente, por um pequeno período umas terras para o lado da Fazenda Intendência, lá não ficam nem 15 dias devido às condições do local. Então, alugam uma casa na Rua 14 de Julho, próximo ao leito da estrada de ferro no centro da cidade. Procuram daqui e dali e após três meses conseguem comprar uma fazenda, sendo esta propriedade do senhor Pedro Jacinto². Eram 150 alqueires de terras, na Fazenda Cabeceira do Sobradinho e Barreiro, as margens da Rodovia Anápolis - Colônia Agrícola (hoje Ceres). Localizava-se entre a cidade de Anápolis e o povoado do Pau Terra³. Essa propriedade rural foi vendida a porteira fechada, isto é, com tudo que havia dentro, inclusive com um ótimo engenho e alambique. Posteriormente, instalaram uma olaria diversificando as atividades empreendidas na fazenda. O dinheiro que possuíam era insuficiente para pagar a compra da fazenda, foi então que Pedro Jacinto fez condições para o pagamento: deram como entrada o dinheiro que tinham. Assim, ao longo de dois anos quitaram a compra com a produção de rapadura e pinga, sendo revendidos em Anápolis e nas cidades circunvizinhas. 

            Onofre se estabelece na sede e cada um dos filhos casados ocupam um determinado lugar na fazenda, já os solteiros, assim que se casaram, fizeram o mesmo. Esses filhos deixaram enorme descendência, pois deram a Onofre e Virgilina a contagem de 43 netos. Todos são anapolinos, com exceção das netas Valdete e Benedita que nasceram em Uberlândia. A propriedade se estendia desde a Rodovia Anápolis – Colônia Agrícola (precursora da Belém-Brasília) na altura do Miranápolis e Guanabara,  até bem próximo do Piancó e do Gengibral. No fim da década de 1960, grande parte das terras foram desapropriadas para a construção da Base Aérea de Anápolis, sendo esta, um dos símbolos do Município.  Mais tarde, a maioria dos familiares venderam suas partes e mudaram-se para a cidade, restando nos dias de hoje, praticamente nada do que foi a grande fazenda dos anos 1940 e 1950. 

            Porém uma coisa nos restou, a qual não desfazemos: Anápolis soube acolher muito bem nossa família.  Não nos esquecemos de nossas origens mineiras, mas somos anapolinos,  pois  é Anápolis que nos identifica, somos filhos da Terra de Sant’ Ana, afinal de contas, são 70 anos nesta cidade abençoada. Ir a Uberlândia ou Araguari para nós,  significa rever nossos parentes queridos que lá permaneceram, estar perto de nossas origens e ver o que os nossos antepassados construíram! Minas faz parte de nós, do nosso ser e o coração está dividido entre lá e aqui, o Estado do Queijo e o Estado do Pequi, dois estados irmãos. 

Enfim, Anápolis nos fez anapolinos! Anapolinos do uai, sô! 

“Anápolis, Anápolis poema de bravura. Que escreveram nossos pais, nossos avós. Alma gigante que se alastra em terra pura. Canção de amor que a gente canta em plena voz.”

(Refrão do Hino de Anápolis)

NOTAS:

¹ : Dados do Porto Seco Centro Oeste S/A.
           
Pedro Jacinto²  : Nasceu em 1900 e faleceu em 1949. Há uma rua no Bairro São Lourenço que leva o seu nome, próxima ao Cemitério São Miguel. Foi proprietário daquela região, quando ainda não passava de pastos de fazenda.

Pau Terra³ : Povoado que surgiu na década de 1930, levou esse nome por haver um grande e velho pau-terra (árvore típica do cerrado), o qual os cavaleiros arreavam seus animais.  Em 1953, passou a condição de Distrito de Anápolis, com o nome de Interlândia, permanecendo com esse nome até hoje. Situa-se as margens da Rodovia Federal Belém-Brasília (BR 153).

4 : É possível analisar a contabilidade do engenho, pois os livros de assentamento foram guardados por Joaquim Rodrigues de Rezende até a sua morte, após isso sua filha Benedita os guardou e os passou posteriormente para o seu neto Daniel Alves Rezende, autor deste texto.


REFERÊNCIAS:

FERREIRA, Haidée Jayme. Anápolis Sua Vida, Seu Povo. Brasília: Editora do Senado, 1981.
CARDOSO, Waltecir J. Entre Parentes: História e Genealogia. Uberlândia: Composer, 2005

Acervo Onofre Rezende  –  Documentos – Anápolis – GO

Depoimentos orais colhidos de: Manoel Rodrigues de Rezende, Ludovina Maria dos Santos, Pedro Rodrigues de Rezende e Ormezinda Ferreira Gomes.

www.portocentrooeste.com.br. Acessado no dia 30/03/2011 as 21:30 Hs.

Hino Municipal de Anápolis - Letra de Genya Eleutério e Música do maestro Oreste Farinello.

FOTOS:

Acervo Fotográfico do Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho – Anápolis – GO
Acervo Onofre Rezende  –  Fotografias – Anápolis – GO
Acervo de Yara de Pina Godoy - Anápolis - GO


Daniel Rezende - © 2011 - Todos os direitos reservados 

Texto atualizado em 19/01/2015.

5 comentários:

  1. Gosto demais de vir ao seu blog ler essas postagens maravilhosas. Voce está de parabéns.

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  2. tudo joia daniel Rezende meu nome e Roberto Rezende sou carioca e meus pais sao de minas gerais.sou sobrinho neto de franklin de rezende
    de araçuia e gostaria de conhecer meus parentes de goias meu pai disse que tenho muitos ai.so conheço os rezende de minas gerais. um abraço e valeu pelo interesse de fazer a pesquisa sobre a familia rezende.

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  3. Passei aqui e deixo um grande abraço.

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  4. Olá, Daniel! Tenho muitos parentes em Anápolis, e sei que minha família migrou de Minas Gerais, Belo Vale, para a cidade goiânia, porém desconheço minhas primeiras origens. Muito bacana tua pesquisa. Parabéns, 'primo'!

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    1. Muito interessante. Eu também moro em Anápolis - GO e tenho o mesmo nome que o Daniel Rezende, "Daniel Alves de Rezende", autor destes textos. Minha família, tanto paterna quanto materna é da região de Belo Vale - MG.

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