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segunda-feira, 24 de junho de 2019

FAMÍLIA PANIAGO: DESBRAVADORA DOS SERTÕES DO BRASIL CENTRAL







Família Paniago: desbravadora dos sertões
do Brasil Central

DANIEL ALVES[1]

Laudemus viros gloriosos, et parentes nostros in generatione sua” é a primeira frase apresentada no capítulo 44 do Livro do Eclesiástico, escrito pelo mestre de sabedoria judeu Ben Sirá no século II a.C. Em tradução simplificada do latim, poderíamos assim entender: “Façamos o elogio dos homens ilustres, nossos antepassados através das gerações”. Creio que unido aos sentimentos do autor bíblico surge o primeiro encontro da Família Paniago, para reverenciar os antepassados e brindar a vida dos familiares presentes.
Sempre fui curioso e atento as histórias e estórias contadas em família, sobretudo, as relatadas por minha avó materna Benedita de Fátima Rezende (1943-2012). A prosa convergia em torno dos Rezende e afins, mas, em um belo dia ouvi pela primeira vez o sobrenome Paniago, quando ela contou que em sua terra natal - Uberlândia - havia um primo de segundo grau chamado Antônio Paniago. A partir dali, o inusitado sobrenome jamais sairia de minha mente.
Em visita a Uberlândia no ano de 2009, conheci o primo Waltecir Cardoso - neto de Miguel José Paniago - que interessado pela história da família e instigado por seu irmão Altair, escreveu o livro “Entre Parentes – Memória e Genealogia”. Rapidamente o li e o analisei, compreendendo a genealogia exposta e suas ligações. No entanto, todo bom autor tem seus padecimentos, ainda mais quando deseja provar algo que seja carente de comprovação documental. Assim, por mais que haja sólidas evidências, o fato permanece no campo da hipótese.
Na mesma semana marchei para a Catedral Santa Terezinha em busca de registros nos antigos livros paroquiais, após folhear minuciosamente páginas e páginas amareladas pelo tempo, um precioso registro apareceu. Em 27 de julho de 1875, na antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo em Uberlândia casaram-se meus tetravôs Dâmaso Ferreira da Fonseca e Mariana Luciana de Rezende. Ao ler a filiação dos cônjuges, fiquei estupefato, pois, minha tetravó Mariana (1853-1918) era filha de Antônio Joaquim Paniago e Anna Maria de Rezende.
Por meio do mesmo esquema descobri que outra tetravó, Maria Magdalena de Jesus (1858-1922), era a filha caçula de Antônio Joaquim e Anna Maria. Assim, irrevogavelmente o sangue dos Paniago corria em minhas veias. Mas, afinal de contas, quem era esse casal? Provavelmente de origem espanhola, Antônio Joaquim Paniago chegou ao Brasil na primeira metade do século XIX e estabeleceu moradia na antiga Aldeia de Sant’Ana do Rio das Velhas, hoje Indianópolis (MG).
Já a mineira Anna Maria de Rezende era filha de Manoel Machado Rodrigues e Mariana Alves Rabello, que morrera antes da filha completar dois anos de idade. Coube sua criação a avó materna Luciana Alves de Rezende, que lhe deu o sobrenome. Aos dezesseis anos casou-se com Antônio Joaquim Paniago, com quem teve onze filhos, a saber: Antônio José Paniago, José Joaquim Paniago, Manoel Joaquim Paniago, João José Paniago, Bento José Paniago, Francisco Paniago, Anna Luciana de Rezende, Maria Rosa de Rezende, Maria Joana de Rezende, Mariana Luciana de Rezende e Maria Magdalena de Jesus. Como se nota, os homens herdaram o sobrenome do pai, enquanto as mulheres o da mãe.
O primeiro filho do casal, Antônio José, nasceu em janeiro de 1840 e foi batizado na Igreja Matriz da Aldeia de Sant’Ana a 19 do mesmo mês. Foram padrinhos o avô Manoel Machado Rodrigues e a bisavó Luciana Alves de Rezende, conforme se atesta no registro. Com os irmãos formou-se na lida diária da roça, na lavoura e na criação de animais, porém, o pai, lhe ensinaria algo mais, o ofício de carpinteiro, que o levaria mais tarde a fabricar carros de boi. Outro grande legado deixado aos filhos do casal foi à alfabetização, coisa rara na população rural do século XIX. Embora, a mãe Anna Maria fosse analfabeta, sua família possuía muitos letrados, o que certamente influenciou no aprendizado dos filhos.
Sábado, 2 de outubro de 1858. Uma triste notícia se abateu na Fazenda do Rio Claro, local de residência dos Rezende, Rabello e Paniago. O patriarca Antônio Joaquim Paniago faleceu deixando Anna Maria viúva aos 36 anos com onze filhos para criar. Antônio, o mais velho já contava com 19 anos e a caçula Maria Magdalena com apenas seis meses. Jovem maduro, trabalhador e conhecedor das coisas, emancipou-se por decisão do juiz de órfãos de Uberaba, que também o nomeou tutor dos irmãos menores.
 A ele cabia a administração de suas heranças até que alcançassem a maioridade, naquela época, obtida aos 21 anos. Assim, Antônio tornou-se o esteio da mãe, ajudando-a nos negócios da fazenda e na formação dos irmãos menores, que se debruçavam no trabalho. Eram 104 alqueires na Fazenda do Rio Claro e em torno de 24 alqueires repartidos entre as fazendas Rocinha, Registro, Macaúba e Taquaral. A maior parte adquirida por herança da família de Anna Maria e o restante por compras que Antônio Joaquim fizera.
O tutor cuidava também dos interesses de seus irmãos e lhes arrumava casamento, não antes de pagar uma taxa ao Estado, que expedia a devida licença. Com isso os irmãos menores eram emancipados e podiam receber suas heranças (homens), já às das mulheres eram repassadas a administração dos maridos, assemelhando-se a um dote. Nesta altura, Antônio José também encontrou sua companheira, Maria Cândida de Jesus, que pertencia à família Martins Veloso e, para homenagear o pai falecido, passou a assinar o mesmo nome, Antônio Joaquim Paniago.
Os primeiros filhos nasceram em São Pedro de Uberabinha, hoje Uberlândia-MG, porém, o futuro estava reservado bem distante dali. Após o final da Guerra do Paraguai em 1870, propagandeou-se no Triângulo Mineiro sobre as facilidades de adquirir enormes quinhões de terras devolutas nos sertões mato-grossenses ou no Sudoeste Goiano. Assim, chegaram os Cândido de Rezende a região de Terenos em 1871, os Lino de Rezende a região de Anhanduí, Campo Grande em 1875 e também alguns membros da família Carrijo.
Esporadicamente, chegavam a Minas, notícias da então Província do Mato Grosso, que incutiam em Antônio o desejo de seguir o rastro dos parentes e desbravar aquelas terras. Em Uberabinha nada mais o prendia, todos os irmãos estavam casados, com exceção da caçula que estava no convívio da mãe e do padrasto, Manoel Adriano da Silva.  Assim, o aventureiro com a esposa Maria Cândida e os filhos pequenos despediram-se de todos e partiram em carro de boi pela velha estrada em direção ao Mato Grosso.
Depois de percorrer aproximadamente 400 quilômetros, chegaram a Vila de Sant’Ana do Paranaíba, cujo território era disputado pelas províncias de Mato Grosso e Goiás. Descansaram por uns dias e pediram informações para seguir a jornada. Com o carro na estrada bateram para a região do Rio Verde e se estabeleceram na margem direita deste, cujo território pertencia à época, ao extenso município de Nioaque. O arraial mais próximo dali distava 180 quilômetros e possuía algumas choupanas dispersas e um comércio tímido. Era Campo Grande, que mais tarde, em 1889, tornar-se-ia distrito de Nioaque e dez anos depois, município autônomo.
 Da Fazenda Rio Verde - também chamada de Velha - localizada hoje no município de Ribas do Rio Pardo (MS), nasceria à frondosa árvore dos Paniago, cujos galhos e ramos se estenderiam pelos atuais estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Ali, em meados de 1880, Antônio Joaquim Paniago Filho começou sua vida nova, derrubando matas para o plantio e a criação de gado, para isso, teve que enfrentar feras e índios bravios. Mas, o que lhe faria mais conhecido em toda a região seria o ofício artesanal que o pai lhe ensinara, o de fabricar carros de boi. Em pouco tempo seus carros tornaram-se afamados e inúmeros fazendeiros dos sertões do antigo Mato Grosso vinham lhe fazer encomendas. Enquanto, ele se entretinha com a confecção dos carros, os filhos ficavam por conta da lida da fazenda.
Na nova terra, Antônio Joaquim e Maria Cândida teriam mais filhos, onze ao todo, alguns eram mineiros e outros mato-grossenses. Sendo eles: Rosalina Maria de Rezende (1865), Antônio Martins Paniago (1866), José Martins Paniago (1872), Elias Martins Paniago, Manoel Martins Paniago, Bento Martins Paniago, Deolinda Maria, Cândida Maria (1881), Genoveva Maria, Maria Jesuína e Lucinda Maria de Rezende. A infância trazia poucas diferenças da vida adulta, pois, aprendia-se desde cedo a apartar o gado, a moer cana no engenho e a capinar, dentre outros. Em alguns anos, os filhos já estavam crescidos e na “idade de casar” e o que os pais decidissem, estava irremediavelmente decidido, pois, os casamentos eram arranjados. Restava então, marcar a cerimônia na Igreja ou esperar o padre em dia de desobriga.
De acordo com as fontes acessadas, dentre elas, o livro Família Augusto Paniago Nogueira, publicado pelo primo João Batista Nogueira em 2010, tentamos expor o caminho seguido pelos filhos do casal patriarca. Rosalina Maria de Rezende (1), a mais velha, casou-se com o mineiro Pedro Martins Pereira, fazendeiro do Alto Sucuriú com quem teve os filhos Maria Izabel, Manoel, José e Clemente Raimundo Pereira. Viúva, em 1896, une-se a Luiz Gonzaga Nogueira, também viúvo e morador da região do Rio Sucuriú, com o qual teve os filhos Augusto, Sebastião e Genoveva Nogueira. Casou-se novamente, em 1908, com João Maciel do Carmo e teve as filhas Angelina e Maria Olinda. Em 1935, falece Rosalina deixando grande descendência.
Aos 19 de outubro de 1866, nascia em São Pedro de Uberabinha (hoje Uberlândia-MG) Antônio Martins Paniago (2) que em 09 de novembro seguinte seria batizado na antiga Matriz de Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião. O registro traz um detalhe interessante, pois, o sobrenome Paniago é apresentado sob a forma espanhola Paniagua. Criado nas terras sul-mato-grossenses casou-se primeiramente com Josefa Joaquina de Menezes, com quem teve os filhos Manoel Martins Sobrinho, casado com Guilhermina Garcia Martins; Emília Paniago, casada com Epaminondas Cândido; José Martins Sobrinho (Zeca Sobrinho); Francisco Martins Paniago; Maria Martins Paniago e Belmira Paniago. Viúvo, Antônio casou-se com Teresa Delfina de Jesus e tiveram os filhos João, Bertolino, Friciano, Josefa, Flausina, Rosário e Doralina, falecendo bastante idoso em fins da década de 1940.
Em sequência aos filhos de Antônio Joaquim e Maria Cândida, temos Maria Paniago (3) que no entender do escritor José Corrêa Barbosa, chamava-se Jesuína. Divergências do nome a parte, ela casou-se com Manoel Rodrigues Ferreira (Nina), com quem teve os filhos Josefa, Maria Feliciana, Maria Belonísia, Antônio, José, Manoel, Heliodoro, Elias, Francisco, Domingos, Onofre, Genésio e Álvaro, todos de assinatura Rodrigues Ferreira. Já, José Martins Paniago (4), nasceu em 20 de agosto de 1872 em Uberabinha, onde foi batizado. Com Maria Abadia Dias, filha de Luiz Gonzaga Nogueira e Maria Joaquina Dias casou-se, deixando os filhos Antônio, Belmira, Bertolino, Jovina, Severo, dentre outros, que levavam os sobrenomes Dias Paniago. No ano de 1922, faleceu José em sua fazenda, próxima ao Rio Verde.
Elias Martins Paniago (5) casou-se com sua sobrinha Maria Izabel, filha de Pedro Martins Pereira e Rosalina Maria de Rezende. Ao que se sabe, tiveram os filhos Camilo, Jacinto, Manoel, Olívia, Lourdes, Doralina e Targino. Em fotografia do ano de 1911, o casal e um filho pequeno aparecem vestidos elegantemente, no colete de Elias observa-se até mesmo um relógio de bolso, objeto caríssimo naquela época. Manoel Martins Paniago (6) casou-se com Deolinda de Rezende, homônima de sua irmã e se estabeleceu na região de Mineiros (GO). O casal deixou ao menos os filhos Alvina, Elias, Antônio, Delminda, Aristino, Genoveva, Maria Sebastiana, Maria Benedita, Maria Rita e Ibrantina, estas três últimas, religiosas da Congregação Salesiana. De um modo geral, os descendentes de Manoel e Deolinda concentram-se nas regiões de Mineiros, Santa Rita do Araguaia e Alto Araguaia.
Por sua vez, Deolinda Maria de Rezende (7) e Lucinda Maria de Rezende (8) casaram-se com dois irmãos, respectivamente, José Luiz Nogueira e João Luiz Nogueira. Estes eram filhos de Luiz Gonzaga Nogueira e sua primeira esposa Maria Joaquina Dias. Deolinda faleceu em 1924 e Lucinda em 1945, deixando vasta descendência. Cândida Paniago (9) era casada com Luiz Cândido Pereira, cujos filhos desconhecemos. Por último, temos Genoveva (10) e Bento (11), falecidos provavelmente na infância.
Pouco depois do estabelecimento de Antônio Joaquim Paniago na Fazenda Rio Verde, chega à região seu irmão Bento José Paniago e família, que adquire a Fazenda Estiva, uma propriedade de 5000 mil hectares. Onde com sua esposa Maria Rita de Cássia cria nove filhos. Com a morte desta em 1892 e também devido a querelas familiares, vendeu a propriedade e seguiu para a região de Coxim. Em Jataí (GO), casou-se no ano de 1893, com Amélia Basília de Jesus, tendo mais quinze filhos. Não tardou para que Bento se tornasse um fazendeiro rico e bem sucedido, em sua fazenda de Jataí, além da lavoura e criação de gado, possuía três empreendimentos, sendo um engenho de açúcar, um engenho de serra e uma olaria. Enquanto que, na fazenda de Coxim, dedicava-se especificamente à criação de gado, assim, dividia-se entre os dois locais. Em torno dos 60 anos de idade, morreu Bento José Paniago na cidade de Jataí em 1915, deixando os filhos Antônio, Joaquim, Maria, Zeferino, Luiz, Francisco, José, João e Virgilina da primeira união. Além de Pedro, Custódio, Belmiro, Sebastião, Manoel, Basílio, Maria, Sebastiana, Laurinda, Luiza, Idalina, Etelvina, Laudelina, Jesuína e Lídia do segundo enlace.
O fato é que ao sair do Triângulo Mineiro para desbravar as terras do antigo Mato Grosso em fins do século XIX, os pioneiros da família Paniago edificaram uma progênie numerosa e abençoada, que tem no trabalho árduo uma das suas maiores marcas. Então, nada mais justo do que rememorarmos a história de nossa família, cuja árvore se destaca pelos bons frutos.

REFERÊNCIAS:

BARBOSA, José Corrêa. A saga dos Rodrigues: 150 anos de história em Mato Grosso do Sul. Campo Grande, IHGMS, 2005.
CARDOSO, Waltecir José. Entre Parentes: História e Genealogia. Uberlândia: Composer, 2005.
CUNHA, Marlei. Costa Rica: História e Genealogia. 2ª Ed. Costa Rica: Editora Caiapó, 2009.
NOGUEIRA, João Batista. Família Augusto Paniago Nogueira. Brasília: Duo Design, 2010.
Arquivo Público de Uberaba – Documentação do Poder Judiciário, varas cíveis.
Arquivo da Diocese de Uberlândia – Livros de registros paroquiais de Indianópolis e Uberlândia.
Documentos do acervo particular do autor.


Artigo publicado na Revista Comemorativa da Família Cândido e Paniago, lançada em 6 de setembro de 2018 no I Encontro da Família em Paraíso das Águas - MS. 




Editorial: Marlei Cunha; Arte e diagramação: Terena Cunha; Pesquisadores e redatores: Daniel Alves Rezende, João Batista Nogueira, Marlei Cunha, Ronildo Garcia e Waltecir Cardoso.




[1] Nasceu na cidade de Anápolis (GO) no ano de 1990. É graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Pós-Graduado em Docência Universitária pela Faculdade Católica de Anápolis.  Em 2014, publicou seu primeiro livro: De Antas a Anápolis – a História de formação do Município” e editou em 2016, o livro-álbum “Diocese de Anápolis – 50 Anos”. Desde o ano de 2008, dedica-se as pesquisas genealógicas no intuito de aprofundar sobre a história familiar. É pentaneto de Antônio Joaquim Paniago e Anna Maria de Rezende. 



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quinta-feira, 31 de março de 2011

Família Rezende e seus 70 anos de Anápolis


Panorâmica da Rua Manoel D' Abadia na década de 1940
Nesse mês de março que se finda a família Rezende completa o seu septuagésimo aniversário de chegada a Anápolis, a antiga e pacata Vila de Sant’ Ana das Antas. Permitam-me primeiro fazer um resumo do contexto econômico de Anápolis. Com a inauguração da Estrada de Ferro Goyaz em 1935, Anápolis dá um salto em sua história econômica e social. Tanto que recebeu o título de capital econômica de Goiás, permanecendo até os dias de hoje. Também sendo chamada de Manchester Goiana e de Ribeirão Preto de Goiás devido a sua efervescência econômica.  Só para nos inteirar melhor, foi à primeira cidade do Estado a construir edifícios e com elevadores, isso em 1937. A primeira a dispor de telefonia, a partir de 1938. Outro fato importante, foi ter um banco com capital inteiramente anapolino, sendo o maior do estado, cognominado Goiaz Bank. Também abrigava os maiores armazéns e atacadistas do estado, sobretudo com a importante participação e domínio comercial da colônia sírio-libanesa. Com a construção de Goiânia e, posteriormente, a de Brasília, a cidade foi base de fornecimento de matéria-prima e mercadorias para as novas capitais. 
Edifício do Goiaz Bank em 1946

Hospital Evangélico Goiano, Edifício Dona Dayse em 1942, porém construído em 1937.

            O certo é que Anápolis alcançou uma posição econômica que permanece até os dias atuais, sendo muito disputada por outras cidades goianas. Só que no ritmo que Anápolis vai, será difícil tais cidades alcançarem. Primeiro pela estrutura industrial e comercial que a cidade possui, capitaneadas pelo DAIA – Distrito Agro-Industrial de Anápolis, abrigando o Porto Seco Centro Oeste, o maior porto do interior do Brasil. “Para se ter uma idéia de sua importância econômica, em 2010 o Porto Seco movimentou US$ 2.098 bilhões, praticamente a metade de tudo o que Goiás importou no ano passado e 80% a mais em relação ao que foi registrado em 2009, que foi de US$ 1.100 bilhão¹”

           Pode-se destacar ainda a Base Aérea Militar da Aeronáutica instalada no início da década de 1970, e que é responsável pela defesa da capital federal, Brasília e de todo o Centro-Oeste. Também a ferrovia Norte-Sul tem o quilômetro zero na cidade, cujas obras estão em andamento e proporcionará outro salto econômico.  É um polo educacional, sendo sede da Universidade Estadual de Goiás e de outras faculdades. Outro fator que hoje impulsiona a cidade e que nós não poderíamos deixar de mencionar é a excelente administração do prefeito Antônio Gomide. Ele conseguiu retirar a cidade de um marasmo administrativo e político, que reinava há anos. Em dois anos de governo a cidade tem uma cara totalmente diferente, é só irem às ruas e confirmar com o povo do que estamos falando. 

Belarmino e seu filho José (Seu Zeca) no fim da década de 1920
            Voltando para o assunto a que o título propõe, é nesse contexto da década de 1940 que a família Rezende muda-se de Araguari (mas originária de Uberlândia) para Anápolis. Numa época de “vacas gordas”, com a ideia de que se teria uma vida melhor e alcançaria êxitos financeiros. Já morava em Anápolis desde a década de 1930, o casal Belarmino Ferreira de Rezende e Rita Maria de Jesus (Nenê) juntamente com seus filhos, José Virgínio de Rezende, Acácio Rezende e Manoel Ferreira de Rezende. Todos oriundos de Uberlândia, outrora São Pedro de Uberabinha.  Em Anápolis residiam na Fazenda Mata Amarela ocupada posteriormente nos anos cinqüenta pela Vila Fabril. José Virgínio de Rezende (mais conhecido como Seu Zeca) foi passear em Araguari na casa dos tios Onofre Rodrigues de Rezende (*1884 +1966) e Virgilina Maria de Rezende (*1887 +1951), moradores da Fazenda Fundão, em frente a Estação Ferroviária Stevenson. Lá fez a propaganda de Anápolis, afirmou que era um lugar muito bom e promissor, que dava chance de bons negócios. Onofre ficou interessado e sentiu-se atraído pela conversa.

            Enquanto isso, José permanece na casa dos tios por mais alguns dias, e Onofre já havia decidido que iria com o sobrinho para conhecer a cidade. Embarcam numa "Maria Fumaça" rumo a cidade goiana e chegando ao seu destino, o velho tio Onofre percorre o município e encanta-se pela Terra de Sant’ Ana. Ficou logo na vontade de comprar uma fazenda na região e mudar-se, as terras aqui eram mais baratas do que as de Minas. Retorna então para casa, e expõe a família o que encontrou e o desejo de vender a propriedade e transferir-se para Anápolis. Houve certa relutância, mas a família acabou cedendo com a esperança de adquirirem uma grande propriedade por um preço baixo. E é assim que a família desfecha sua história na Stevenson, vendendo o sítio de 16 alqueires a beira da estação. 

José Virgínio de Rezende (Seu Zeca)
            Voltam a Anápolis a procura de fazendas para comprar, enfrentam algumas dificuldades. Chegam a fazer negócio numa, situada na região do DAIA, mas o proprietário, o major Olímpio Barbosa de Melo acabou falecendo e o negócio desfeito. Mesmo assim, sem a compra de terras a família decide-se mudar. Além de Onofre e a esposa Virgilina, vieram juntos os filhos José Rodrigues de Rezende (*1914 +1967), Olímpio Rodrigues de Rezende (*1918 +1979), Manoel Rodrigues de Rezende (*1921 +2013), Adélia Maria de Rezende (*1924 +1981) e a filha adotiva Maria “Nega” (* 1938 +2007). Os dois primeiros, José e Olímpio, já eram casados e trouxeram suas esposas, respectivamente: Izabel Rodrigues da Cunha (*1917 +1981) e Ludovina Maria dos Santos (*1922). Onofre e Virgilina só não ficaram completamente contentes pelo fato do filho mais velho, Joaquim Rodrigues de Rezende (*1911 +1976) casado com sua prima Maria Ferreira de Rezende (*1917 +2008) não terem vindo, pois estes continuaram morando na Fazenda Sobradinho em Uberlândia.  É só em janeiro de 1944 que Joaquim e Maria mudam-se para Anápolis, já tendo duas filhas: Valdete Maria de Rezende (*1941 +2008) e Benedita de Fátima Rezende (*1943 +2012). Em solo anapolino tiveram mais três filhos: João Martins de Rezende (*1945 +2014), Diva Rezende Gomes (*1947) e Terezinha Rezende (*1948 +2015).

Rodovia Anápolis-Colônia Agrícola Km 4 em 1949. No local da Av. Fernando Costa na Vila Jaiara
            Arrendam, primeiramente, por um pequeno período umas terras para o lado da Fazenda Intendência, lá não ficam nem 15 dias devido às condições do local. Então, alugam uma casa na Rua 14 de Julho, próximo ao leito da estrada de ferro no centro da cidade. Procuram daqui e dali e após três meses conseguem comprar uma fazenda, sendo esta propriedade do senhor Pedro Jacinto². Eram 150 alqueires de terras, na Fazenda Cabeceira do Sobradinho e Barreiro, as margens da Rodovia Anápolis - Colônia Agrícola (hoje Ceres). Localizava-se entre a cidade de Anápolis e o povoado do Pau Terra³. Essa propriedade rural foi vendida a porteira fechada, isto é, com tudo que havia dentro, inclusive com um ótimo engenho e alambique. Posteriormente, instalaram uma olaria diversificando as atividades empreendidas na fazenda. O dinheiro que possuíam era insuficiente para pagar a compra da fazenda, foi então que Pedro Jacinto fez condições para o pagamento: deram como entrada o dinheiro que tinham. Assim, ao longo de dois anos quitaram a compra com a produção de rapadura e pinga, sendo revendidos em Anápolis e nas cidades circunvizinhas. 

            Onofre se estabelece na sede e cada um dos filhos casados ocupam um determinado lugar na fazenda, já os solteiros, assim que se casaram, fizeram o mesmo. Esses filhos deixaram enorme descendência, pois deram a Onofre e Virgilina a contagem de 43 netos. Todos são anapolinos, com exceção das netas Valdete e Benedita que nasceram em Uberlândia. A propriedade se estendia desde a Rodovia Anápolis – Colônia Agrícola (precursora da Belém-Brasília) na altura do Miranápolis e Guanabara,  até bem próximo do Piancó e do Gengibral. No fim da década de 1960, grande parte das terras foram desapropriadas para a construção da Base Aérea de Anápolis, sendo esta, um dos símbolos do Município.  Mais tarde, a maioria dos familiares venderam suas partes e mudaram-se para a cidade, restando nos dias de hoje, praticamente nada do que foi a grande fazenda dos anos 1940 e 1950. 

            Porém uma coisa nos restou, a qual não desfazemos: Anápolis soube acolher muito bem nossa família.  Não nos esquecemos de nossas origens mineiras, mas somos anapolinos,  pois  é Anápolis que nos identifica, somos filhos da Terra de Sant’ Ana, afinal de contas, são 70 anos nesta cidade abençoada. Ir a Uberlândia ou Araguari para nós,  significa rever nossos parentes queridos que lá permaneceram, estar perto de nossas origens e ver o que os nossos antepassados construíram! Minas faz parte de nós, do nosso ser e o coração está dividido entre lá e aqui, o Estado do Queijo e o Estado do Pequi, dois estados irmãos. 

Enfim, Anápolis nos fez anapolinos! Anapolinos do uai, sô! 

“Anápolis, Anápolis poema de bravura. Que escreveram nossos pais, nossos avós. Alma gigante que se alastra em terra pura. Canção de amor que a gente canta em plena voz.”

(Refrão do Hino de Anápolis)

NOTAS:

¹ : Dados do Porto Seco Centro Oeste S/A.
           
Pedro Jacinto²  : Nasceu em 1900 e faleceu em 1949. Há uma rua no Bairro São Lourenço que leva o seu nome, próxima ao Cemitério São Miguel. Foi proprietário daquela região, quando ainda não passava de pastos de fazenda.

Pau Terra³ : Povoado que surgiu na década de 1930, levou esse nome por haver um grande e velho pau-terra (árvore típica do cerrado), o qual os cavaleiros arreavam seus animais.  Em 1953, passou a condição de Distrito de Anápolis, com o nome de Interlândia, permanecendo com esse nome até hoje. Situa-se as margens da Rodovia Federal Belém-Brasília (BR 153).

4 : É possível analisar a contabilidade do engenho, pois os livros de assentamento foram guardados por Joaquim Rodrigues de Rezende até a sua morte, após isso sua filha Benedita os guardou e os passou posteriormente para o seu neto Daniel Alves Rezende, autor deste texto.


REFERÊNCIAS:

FERREIRA, Haidée Jayme. Anápolis Sua Vida, Seu Povo. Brasília: Editora do Senado, 1981.
CARDOSO, Waltecir J. Entre Parentes: História e Genealogia. Uberlândia: Composer, 2005

Acervo Onofre Rezende  –  Documentos – Anápolis – GO

Depoimentos orais colhidos de: Manoel Rodrigues de Rezende, Ludovina Maria dos Santos, Pedro Rodrigues de Rezende e Ormezinda Ferreira Gomes.

www.portocentrooeste.com.br. Acessado no dia 30/03/2011 as 21:30 Hs.

Hino Municipal de Anápolis - Letra de Genya Eleutério e Música do maestro Oreste Farinello.

FOTOS:

Acervo Fotográfico do Museu Histórico Alderico Borges de Carvalho – Anápolis – GO
Acervo Onofre Rezende  –  Fotografias – Anápolis – GO
Acervo de Yara de Pina Godoy - Anápolis - GO


Daniel Rezende - © 2011 - Todos os direitos reservados 

Texto atualizado em 19/01/2015.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Registros Matrimoniais da Família Paniago

Faço a apresentação dos registros de casamento de três filhos do casal Antônio Joaquim Paniago e Anna Maria de Rezende. Tais casamentos ocorreram em fins do século XIX em Uberlândia, naquele tempo cognominada de São Pedro de Uberabinha. São documentos muito importantes para a história da família, os consegui durante as minhas pesquisas. Seguem abaixo o fac-símile dos mesmos:

- Aos 27 de Julho de 1875, nessa Matriz em minha prezença e das testemunhas José de Carvalho e Joaquim da Fonseca e Silva receberão em matrimonio Damazo Ferreira de Menezes com Mariana Luciana de Rezende, aquelle filho legitimo de João Vicente de Menezes e Rita Luiza da Fonseca e esta filha legítima de Antonio Joaquim Paniago e Anna Maria de Rezende, ambos desta freguesia.
Pe. João da Cruz Dantas Barbosa
Livro M 02.



- Aos 31 de Julho de 1875, nessa Matriz em minha prezença e das testemunhas Antônio
José de Carvalho e Joaquim Pereira dos Santos receberão em matrimonio Bento Joaquim Paniago e Maria Rita de Cassia, aquelle filho legitimo de Antonio Joaquim Paniago e Anna Maria de Rezende e esta filha legítima de José Thomaz Peres e Rita de Cassia Pereira, ambos desta freguesia.

Pe. João da Cruz Dantas Barbosa

Livro M 02.


Fotografia de 1905, Bento J. Paniago, sua 2ª esposa Amélia Basília de Jesus e a filha caçula Etelvina.


- Aos 3 de setembro de 1881, nesta Matriz em minha prezença e das testemunhas Bento Joaquim Paniago e Manoel Peixoto Carrejo receberão em matrimonio Elias Rodrigues Martins e Maria Magdalena de Jesus, aquelle filho legitimo de Francisco Martins Carrejo e Delfina Maria Rodrigues e esta filha legitima de Antonio Joaquim Paniago e Anna Maria de Rezende, ambos desta freguesia.

Pe. João da Cruz Dantas Barbosa

Livro M 03

Esses matrimônios foram realizados na antiga Matriz de Nossa Senhora do Carmo e São Sebastião do Uberabinha, igreja construída em fins da década de 1840 e que foi demolida em 1941. Em substituição foi construída a de Santa Terezinha na Praça Tubal Vilela, que posteriormente transformou-se em catedral.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Memória e oralidade de família

A memória social ancorada na velhice é fonte de pesquisa e análise da sociedade e as suas transformações. Isso só foi possível com o auge da História Cultural, ainda que encontre resistência dentre por certos grupos. A função social exercida durante a vida ocupa parte significativa da memória dos velhos. A memória é uma construção de momentos vividos, o passado. Na velhice, as pessoas tornam-se a memória da família, do grupo e da sociedade. Enfim é o passado daqueles que já não são mais membros ativos da sociedade, mas que já foram.

A juventude não se ocupa das lembranças e do passado, deles a sociedade (capitalista) espera produção, já dos mais velhos espera-se somente a lembrança, a volta ao passado vivido ou relatado por seus antepassados. A escrita da História passou por significativas mudanças, com a validação de outras fontes até então, não aceitas. As fontes escritas não são menos inverídicas do que as fontes orais, porém devem ser analisadas criticamente. Sendo um critério concebível a prática historiográfica como científica.

Minha tia-avó Valdete Maria de Rezende, nasceu em Uberlândia – MG aos 11 de julho de 1941, nos contou diversas histórias sobre seu bisavô paterno chamado Elias, porém não chegou a conhecê-lo. Disse que foi proprietário de muitas terras e também de muitos escravos na Fazenda Marimbondo em Uberlândia. Entre os seus escravos, havia uma escrava doméstica por nome Lúcia. Num certo dia alguns compadres vão visitá-lo em sua fazenda, ele pediu a escrava Lúcia que passasse um café para as visitas. Conversa vai, conversa vem e Lúcia apareceu no salão com a bandeja de café, todos pegaram a sua xícara e degustaram o café, porém sentiram um gosto estranho, mas nada falaram. Era costume da época deixar um restinho na xícara, assim que todos foram embora, Elias começou a virar uma por uma, quando deparou com um pequeno pedaço de fumo no fundo da xícara. De imediato deu um grito em Lúcia, ela rapidamente apareceu no salão. Pediu desculpas e que aquilo não ocorreria mais, e terminou por aí.

Naqueles tempos as carnes e a gordura em guardadas em grandes potes de barro, para que durassem mais tempo e não perdessem. A escrava Lúcia informou a Elias que as carnes e a manteiga estavam acabando, e que seria necessário matar uns dois porcos. Ele foi a despensa conferir o que ela havia falado, constatou que estava abaixo da metade do pote, porém o seu espírito sovina falou mais alto. Disse que era para esperar mais um pouco, que não matasse os porcos e deveria economizar o restante. Quando estivesse no limite, daria o andamento para a matança dos porcos.

Alguns dias se passaram e Elias estava perto do rego d'água abaixo do quintal, percebeu que as águas do rego estavam tingidas de sangue, decidiu acompanhar o rego acima para ver o que estava acontecendo. Chegou a varanda, onde também era uma espécie de cozinha, e lá estava a escrava Lúcia com os porcos mortos, um já estava na tacha fritando e outro ela estava lavando as miudezas na bica d'água. Ele sopitou de imensa raiva e de imediato gritou com Lúcia, falou que não toleraria tamanho atrevimento, pois havia desobedecido as ordens dadas por ele . Buscou o chicote e castigou a coitada da Lúcia, ela só queria comer um bom pedaço de carne. Que Deus os tenham.

Essas histórias familiares nunca puderam ser comprovadas. Quando fui a Uberlândia pesquisar sobre a família no arquivo da Catedral Santa Terezinha, encontrei diversos documentos. Entre eles o batistério de Elias Rodrigues Martins datado de 30 de setembro de 1859, havia nascido no dia 21 do mesmo mês. Era filho de Francisco Martins Carrejo e Delfina Alves Rodrigues e os padrinhos foram Manoel Martins Carrejo e João Alves Martins. E no livro dos escravos, o que eu encontrei? O registro da escrava Lúcia, realmente pertencia a Elias, quer dizer a referida escrava existiu e essa história aqui relatada, pode ter acontecido realmente. Os documentos encontrados referendaram em partes a história oral contada em nossa família.


A memória apóia-se sobre o “passado vivido”, o qual permite a constituição de uma narrativa sobre o passado do sujeito de forma viva e natural, mais do que sobre o passado apreendido pela história escrita”.

Halbwachs


Fontes bibliográficas:


BOSI, Ecléa. Memória e sociedade - lembranças de velhos. 3ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994.

REZENDE, Valdete. Relatos orais colhidos em 2007. Anápolis - Goiás